Pela lama no Trilho dos Abutres


Decorreu no passado dia 31 de Janeiro, em Miranda do Corvo, mais uma edição do Trilho dos Abutres.

Em vez da habitual notícia, desta vez vamos apresentar o relato na primeira pessoa dos dois atletas da equipa que participaram na prova, o Rui Pena nos 50km e o Hugo Brito nos 27 km.

Trilho dos Abutres 50 km

"A prova foi muito dura... cerca de 40Km sempre em lama ou no leito de rios... (mas quase sempre lama)... a partida foi adiada das 8h para as 10h... para verificarem as condições... leitos dos ribeiros que transbordaram e alguns aluimentos... a prova acabou mesmo por arrancar. A consequência foi mesmo fazermos a prova em lama, em que os pés afundavam 30, 40 cm... se não mais... Eu pessoalmente, queria testar a minha situação para o UT Sicó (111km), daqui por um mês, e estive sempre a gerir a prova. Ora, havia um Cut Off aos 30km, com 5:30h (estava no regulamento e eu nem vi)... e cheguei ali com 5:33 ... eu e um grupo grande que tinha sido tampado numa enorme descida de mais de 30min, por um par de indivíduos (como eu estava descontraído... não forcei ultrapassagens)... retiraram-me o chip, mas continuei (não sei se houve muitos mais, porque no final disseram-me que ficaram ali tampados mais de 200 ... porque havia mais um cut off, acelerei um pouco mas cheguei lá 2 h antes (o horário do 1º cut off não fazia sentido) ... acabei com o tempo de 9:28:00 ..."

Rui Pena


Trilho dos Abutres 27 km 

"A principal característica do Trilho dos Abutres é o tipo de não piso: lama. É um épico lamaçal, “lama, lama, lama”, respondeu efusivamente um atleta de barro quando lhe perguntaram o que achou da prova.

A segunda característica: não é uma corrida de montanha, é uma prova de obstáculos de montanha. O atleta à minha frente tinha umas sapatilhas não apropriadas para corrida em lama, além de se esforçar imenso por manter a estabilidade, caía a cada 200 metros. Outro atleta, perto das cascatas da Sra da Piedade, o ponto de controlo mais elevado, tal como eu, escorregou no granizo mas, infelizmente, partiu as costelas.

A terceira caracteristica: entre trilhos e ultra só terminaram a prova 50% dos inscritos. As provas começaram com atraso devido a condições climatéricas muito adversas e instáveis. Pessoas que decidiram seguir por sua conta e risco após serem barradas no controlo, terminaram a prova de noite, hipotérmicos e com muita dificuldade, tendo então “entendido” o facto de terem sido barrados apesar de terem “pago para estar ali”. 

Cerca de metade da prova, em termos cronométricos, ocorre no conforto estético da lama, até aos joelhos, o piso debaixo desta fofa camada compôe-se por terra, raízes de árvores, seixos e material orgânico passível de encontrar numa floresta encantada que, rasga meias e pele e nos faz voar mesmo que não apeteça.

Acompanhando a lama, como digestivo, está a água, as inúmeras cascatas e fortes chuvadas resultaram em mais 20% do tempo a correr em meio aquático. Ao 1,5 km entrei até ao peito, para dar ânimo aos outros atletas. A temperatura: crioterapia.

As sapatilhas acumulam areias, seixos e todo tipo de materiais usados na construção civil de florestas. No controlo de Gondramaz seguia em 89º da geral, as dores no joelho direito eram divertidas mas parei para lavar sapatilhas e meias, estavam deselegantes. Além de emagrecer meio quilo em cada pé senti menos dor na descida seguinte. O quilo a menos, no entanto, abrandou-me - um erro tático.

De Gondramaz em diante desce, existe aqui um singletrack em piso de terra dura, cerca de 30 minutos em que é possível manter algum ritmo a correr e recuperar energias, mas não muitos lugares porque é estreito. Ao atingir o rio voltamos ao contacto com troncos de árvores e pedras luzidias. E depois, finalmente, lama.

Ao longe ouço uma voz em cânticos e penso, boa, existe festa na floresta. Esta voz aproxima-se, é um corredor mágico flutuante. A voz está agora atrás de mim mas...as palavras não são de alegria e partilha, próprias de corredores na lama, é alguém a resmungar que está farto da #”$%& da lama. Sentindo que esta voz se aproximava velozmente decidi timidamente resmungar baixinho - resultou, ganhei velocidade e apanhei o atleta à minha frente que se comportava de forma abnegada e silenciosa.
A lama é tanta que algumas pessoas desesperaram por não conseguirem caminhar ou correr normalmente, as pernas arrefeciam muito e quando se recomeçava a correr custava um pouco.

Cheguei ao ultimo controlo, o Espinho, agora já em terreno neo-florestal pré-urbano, sigo na centésima posição, e penso que assim é mais fácil, é só estradão e...lama. Nervoso miudinho, não, só nervoso, não sou nenhum miudinho. 9 minutos de lama depois acelero até à meta para terminar no meu primeiro top 100, que é como o dos discos, os melhores estão no fundo da tabela.

Foi uma prova interessante, a lesão não pemitiu grandes aventuras nas descidas, o meu ponto forte, o que condicionou o tempo à chegada. De qualquer forma melhorei a forma nas subidas, tendo corrido em Z3 a maior parte do tempo sem me cansar nas pernas ou no cardiorrespiratório. Nunca tinha acontecido em subidas (comecei a correr em Maio de 2014). Irei lutar pelo top 50 ainda este ano. 

Obrigado à AASM Triatlo, tenho aprendido muito com o treinador Nuno Serra e com todos os atletas e companheiros de treino"

Hugo Brito

O resultado dos atletas foi:

Trilho dos Abutres - 50 km 
 -  Rui Pena - 9:28:00

Trilho dos Abutres - 27 km 

96º (21º M40) -  Hugo Brito - 3:56:24

Parabéns aos dois

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