Ironman Barcelona - O Desafio do Ano


Para a Joana Creissac, para o Pedro Reis e para mim, o Ironman de Barcelona, disputado no passado dia 4, era sem dúvida o grande desafio da temporada. Para a Joana e para mim, seria a segunda vez que cumpriríamos os 3.8k de natação, 180k de ciclismo e 42.2k de corrida a pé, depois da estreia, há dois anos atrás, no duríssimo Iberman (onde este ano a AASM voltou a estar muito bem representada com três atletas). Para o Pedro Reis, tratava-se da primeira experiência na mais mítica distância do triatlo.

1. A preparação



Normalmente, o relato de uma prova de triatlo reproduz a ordem dos segmentos. No caso de um desafio como o Ironman, contudo, faz sentido começar bem mais atrás. Na verdade, a prova começou quando, em Novembro de 2014, nos decidimos inscrever. A partir daí, toda a época de 2015 foi planeada em função do grande desafio que iria ter lugar no dia 4 de Outubro.

Numa primeira fase, a nossa preparação foi bastante distinta. Partilhando os treinos de natação com os restantes colegas de equipa, sob a orientação do Nuno Serra, começámos por apostar mais forte em aspectos diferentes do treino. Enquanto o Pedro somava quilómetros de corrida a pé durante o inverno, em longos treinos matinais antes do trabalho, a Joana privilegiava o trabalho de reforço muscular e eu percorria entre Novembro e Janeiro mais distância em cima da bicicleta do que em toda a temporada anterior.


Num segundo momento, porém, começámos a convergir na preparação. Desde logo, porque os nossos objectivos intermédios eram idênticos. Apesar de eu ter participado em mais provas de curta distância do que o Pedro e a Joana, todos elegemos os triatlos longos de Lisboa e Caminha como oportunidades para avaliar a forma e as sensações na longa distância. O balanço, após estas provas, era algo ambivalente. Tivemos bons e maus momentos, reagimos de forma diferente a dificuldades distintas, mas uma coisa era certa: Se aquilo já custava, muito mais custaria a dose dupla que nos esperava no futuro. Havia ainda muito trabalho pela frente.



Finalmente, na derradeira fase de preparação em Agosto e Setembro, os fins-de-semana de treino foram maioritariamente passados em conjunto (e muitas vezes também com a preciosa companhia de outros colegas de equipa). O menu incluía saída de bicicleta longa e transição para a corrida, no sábado de manhã, e um triatlo completo no domingo, a acabar com uma corrida longa entre os 20 e os 35k (o autor destas linhas baldou-se sistematicamente à natação aos domingos, para ganhar mais uma horita de sono e por aversão às águas geladas de Matosinhos…). Foram treinos exigentes, com um pouco de tudo: sol e chuva, calor mas também algum frio nas madrugadas de Setembro, vento e subidas. Para mim, o momento-chave foi um treino sob forte calor onde, depois de 160k com bastante desnível nas margens do Douro, e apesar do evidente cansaço, consigo correr meia hora a 4:30 min/k. O optimismo crescia, tanto mais que nas corridas longas de domingo o Pedro e eu passávamos à meia maratona perto da 1h30 (com o Pedro a conseguir aguentar esse ritmo até ao final, enquanto eu quebrava sempre, mais ou menos ligeiramente, no regresso à praia de Matosinhos). O trabalho de casa estava feito!

2. O dia




No dia anterior à prova, já instalados em Calella e com tudo a postos no gigante parque de transição junto à praia, pudemos seguir as notícias dos nossos companheiros que competiam no Iberman. A chegada do Paulo Neves e do Rui Pena perto das 12h dava-nos alento. Era como se eles, lá em Vila Real de Santo António, estivessem a abrir caminho para a nossa aventura na Costa Brava da Catalunha. Fomos dormir confiantes – mesmo a Joana, que lutava com uma constipação que aparecera na pior altura.


O dia amanhecia sereno e ameno. Não corria ponta de vento. Esperávamos pelo início da prova, já de fato isotérmico vestido, a olhar para o mar e a ouvir a selecção musical escolhida – e bem – pela organização. A música puxava pela adrenalina, mas eu sentia-me estranhamente calmo. Decidi ir experimentar a água e fazer um curto aquecimento. Trouxe boas notícias para o Pedro e para a Joana: temperatura perfeita, a rondar os 20º C, um autêntico caldinho para quem treinara nos mares do Norte de Portugal.





A partida soou, primeiro para os profissionais, depois para nós, amadores, por volta das 9h da manhã. Tentei nadar solto, relaxado, sem forçar, porque a prova era longa e a natação praticamente apenas um aquecimento. O percurso consistia numa única volta de 3.8k, o mar estava calmo, com alguma ondulação apenas à entrada e à saída. Olho pela primeira vez para o relógio quando saio da água: 1h10 de prova, muito aquém do objectivo que havia traçado (entre 1h e 1h04). Não dei muita importância; talvez houvesse alguma corrente a dificultar a progressão, ainda que eu não me tivesse apercebido disso. Fico mais preocupado, no entanto, quando encontro a Joana já na tenda de transição. Das duas, uma: ou a Joana estava a voar, ou eu adormecera na água (ou, terceira hipótese, um misto das duas anteriores).





Estava na altura de pedalar. Percurso plano de duas voltas e meia entre Calella e Montgat. O plano era simples: como ainda não aderi aos medidores de potência, procurei manter o ritmo cardíaco constante nos 70% do máximo (ca. 135 bpm), deixando-o subir ligeiramente nas curtas subidas e baixar nas descidas. Percorro a primeira volta pouco acima dos 35 km/h, com óptimas sensações. Na segunda, apesar de se tratar de uma prova onde não se pode “andar na roda” dos adversários, começam a formar-se autênticos pelotões, especialmente nas zonas do percurso onde se circula apenas numa faixa. Na verdade, culpa da organização, não dos atletas ou dos árbitros, que nos iam chamando a atenção e castigando os que abusavam da proximidade à roda traseira dos adversários. Com o traçado actual, para evitar a formação de grupos, esta prova nunca poderia permitir mais do que 1500 participantes. Chego ao retorno para a última meia volta, aos 144k, com a média ainda nos 35 km/h. Por essa altura, contudo, já se fazia notar algum vento, a soprar de frente até ao último retorno por volta dos 165k. Não era um vento forte, mas com a acumulação do esforço parecia que estava a pedalar da Póvoa a Esposende em dia de nortada. Entretanto, o último pedaço de barra energética já se mastigava com muito esforço. Foram precisos mais de 10 minutos para que o conseguisse engolir (sinal de desidratação?). Na zona técnica antes do parque de transição, noto que a velocidade média tinha baixado para os 34.5 km/h. A verdadeira dureza começava agora.


Depois de largar a bicicleta, uma curta paragem na casa de banho. O meu equipamento está cravejado de sal, o que não augura nada de bom. Começo a correr. Surpreendentemente, as pernas estão soltas. Faço os dois primeiros quilómetros abaixo dos 4:30 min/k, ultrapassando cerca de 20 atletas. Vejo a Carolina no primeiro retorno – e ganho ânimo. Olho em frente, vejo alguns monstros de 85kg, que me haviam deixado para trás no ciclismo, a caminhar ainda na primeira de quatro voltas – e ganho mais ânimo. Aos 5k, está na altura de colocar alguma água na fervura. Apesar de todo o entusiasmo, era importante não deixar o pulso subir acima dos 75% do máximo, para não pagar uma factura muito elevada lá mais para a frente. Estabilizo o ritmo nos 4:50, sinto-me confortável e continuo a ganhar posições. Passo à meia maratona com 1h42. Era altura de fazer algumas contas, apesar da fraca oxigenação no cérebro.





O objectivo a que me havia proposto, antes da prova, e atendendo aos dados de treino e às características do percurso, era baixar das 10h30, o que equivaleria a bater o recorde do clube que o grande Emanuel Marques havia estabelecido no Ironman de Regensburg, em 2011. À meia maratona, o meu relógio marcava um tempo total de 8h12. As 10h30 já não escapavam, era certo. Agora, se não quebrasse muito na segunda metade da maratona, talvez fosse possível baixar da mítica barreira das 10h, algo de inimaginável quando comecei a preparação. Até aos 25k, mantenho o ritmo, ganhando alento sempre que passava pela Carolina junto à zona da meta. Contudo, subitamente, aos 27k, na zona mais deserta de público do percurso, onde o vento soprava de frente e cada vez com mais intensidade, quebro para os 6:00 min/k. Começava uma nova fase – a mais dura – da prova, cujo desafio consistia em equilibrar duas sensações totalmente opostas: a necessidade de açúcares e energia para continuar a correr, por um lado, e uma indisposição gástrica que conduzia crescentemente à rejeição de todo o tipo de alimento. Já nem um quarto de laranja conseguia mastigar! Se seguisse o que o estômago me dizia, e não comesse num dos postos de abastecimento, as pernas queixavam-se e o ritmo baixava imediatamente. Se ingerisse um gel ou bebida energética, conforme as pernas pediam, ficava muito perto de vomitar. A Coca-Cola, provavelmente a melhor bebida para este tipo de situações, era o que me permitia manter no fio da navalha – continuando a correr, sem vomitar. Mas a verdade é que parto para a última volta já muito vazio de forças. Passo pela Carolina uma última vez, que me diz que a partir de agora seria fácil, sempre a descer. Deixo de pensar na barreira das 10h e lembro-me que ainda não me havia cruzado com o Pedro Reis. Estaria tudo bem com ele? A tendência seria para se aproximar de mim ao longo do segmento de corrida, onde é mais forte… Pergunto à Carolina, que me responde que o Pedro estava bem. Entretanto, reparo que estou prestes a dobrar a Joana, que estava na segunda volta de corrida. Ia com boa cara, a correr junto com um dos companheiros da Associação de Triatlo de Caminha. Pensei: íamos todos acabar bem. Aos 37k, novamente na zona mais inóspita do percurso, mais um quilómetro ligeiramente acima dos 6:00. A partir daí, todavia, com a meta cada vez mais próxima, começo a reagir. Nos dois últimos quilómetros aproximo-me novamente dos 5:00 min/k. Era altura de desfrutar das últimas passadas, de absorver todas as boas sensações. No último retorno, enquanto outros atletas viravam para mais uma volta, era altura de me dirigir para a meta. O relógio marcava 10h07. Estava feito!





Em meu redor, outros atletas igualmente felizes. Quer dizer, eu via felicidade nos seus rostos, onde um olhar objectivo provavelmente veria apenas marcas de fadiga e exaustão. Pedi um fino e uma sandes de presunto e sentei-me na zona de recuperação, em frente a um ecrã gigante que transmitia imagens da meta, à espera que o Pedro chegasse.


3. O dia seguinte


Deixamos a Catalunha com o sentimento de dever cumprido. Os resultados oficiais foram estes:


Pedro Magalhães: 10:07:09 (374º - 11º AG 25-29)

Pedro Reis: 10:33:36 (594º - 147º AG 35-39)

Joana Creissac 12:47:56 (1660ª - 33ª AG 30-34)
Mas mais importante do que esses números foi a sensação de termos colhido os frutos de quase um ano de dedicação. O Ironman não é uma prova longa e dura porque demora muitas horas. É-o porque exige meses de preparação. No próprio dia, se a preparação tiver sido feita com rigor, a questão essencial prende-se com conseguir desfrutar da prova e, ao mesmo tempo, ultrapassar as últimas barreiras físicas e mentais. Valeu bem a pena – e provavelmente não terá sido, para nenhum de nós, a última vez.



   

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